Matilda: muito além de um filme infantil
O filme “Matilda” (1996) conta a história de uma menina prodígio que cresce negligenciada por pais grosseiros e um irmão agressivo. Ela adora ler, mas é constantemente forçada a lidar com uma família disfuncional e com a diretora tirânica da escola, Srta. Trunchbull.

Em meio a esse cenário, o filme revela algo surpreendente sobre a protagonista: além de suas habilidades intelectuais notáveis em matemática e literatura, ela desenvolve poderes telecinéticos. Ao longo da história, Matilda utiliza esses poderes para proteger a si mesma e também seus amigos.
No entanto, o que mais me chama atenção não são seus “superpoderes”.
O verdadeiro ponto de virada: o encontro com uma figura de cuidado
O verdadeiro ponto de virada em sua vida não acontece por causa dos poderes, mas porque, em meio ao caos, ela encontra uma mulher que compartilha dores semelhantes da infância e que, ainda assim, escolheu fazer a diferença na vida de outras crianças ao se tornar adulta.
Diante disso, pergunto-me: será que a protagonista teria o mesmo desfecho sem a intervenção da professora Srta. Honey? Uma adulta que a enxergou para além de suas habilidades como aluna, reconhecendo-a como um ser humano.
Inclusive, ao pesquisar o significado do nome Matilda, descobri que ele significa “guerreira forte”. Embora represente bem a personagem, é inevitável pensar no quanto é duro que uma criança precise aprender tão cedo a “guerrear” pela própria vida. E é sobre isso que me proponho a refletir neste artigo.
Quando a família não é sinônimo de segurança

Hoje, discute-se cada vez mais que a família biológica nem sempre representa um porto seguro. No entanto, essa não é uma discussão recente. Estudos realizados ainda no século XX já investigavam essas relações.
A psicóloga norte-americana Mary Ainsworth, por exemplo, ficou conhecida por suas pesquisas sobre relações parentais em Uganda e por sua colaboração no desenvolvimento da Teoria do Apego, proposta por John Bowlby.
Seus estudos evidenciaram que o modelo de apego desenvolvido na primeira infância é profundamente influenciado pela forma como os cuidadores primários (geralmente pais ou familiares) respondem à criança. Além disso, fatores temperamentais e genéticos também exercem influência nesse processo.
Teoria do Apego: como os vínculos se formam na infância
Bowlby, criador da Teoria do Apego (TA), define o apego como um mecanismo básico do ser humano, assim como os instintos de alimentação e sexualidade. Segundo ele, a relação de apego funciona como um “sistema de controle homeostático”, ou seja, um sistema que promove regulação emocional.
Na prática, isso significa que a função do apego envolve saber que existe uma figura disponível, capaz de oferecer respostas, fornecendo um sentimento de segurança que fortalece a relação.
Desde o nascimento, o bebê emite sinais inatos, como o choro, que demandam proximidade. Com o tempo, um vínculo afetivo se constrói, e a criança passa a desenvolver capacidades cognitivas e emocionais para reconhecer e responder aos cuidadores.
Dessa forma, a teoria sustenta que as primeiras relações de apego impactam diretamente os padrões relacionais ao longo de toda a vida.
Apego e desenvolvimento emocional: impactos ao longo da vida
Outro ponto importante é que o comportamento de apego é instintivo. Ainda assim, ele não depende exclusivamente de relações saudáveis.
Estudos mostram que crianças também podem se apegar a figuras abusivas. Isso ocorre porque o apego pode se desenvolver tanto quando as necessidades são atendidas quanto quando não são, o que evidencia a complexidade da construção das relações de apego. Assim, o apego se manifesta de diferentes formas e intensidades.
Matilda e Srta. Honey: um exemplo de vínculo reparador

A Teoria do Apego é ampla e repleta de conceitos. Para aprofundamento, recomendo a leitura do artigo utilizado como base, disponível nas referências abaixo.
Para fins de conclusão, destaco um ponto central: Bowlby descreve dois grandes fatores que influenciam a ativação do sistema de apego: as condições físicas e temperamentais da criança e as condições do ambiente em que ela está inserida.
A interação entre esses fatores, somada às experiências de vida, influencia diretamente as respostas afetivas, o desenvolvimento cognitivo e a construção das chamadas “representações mentais”: de si, do outro e do mundo.
Ao trazer isso para a história de Matilda, é possível observar que ela encontra na professora Srta. Honey uma figura de apego capaz de oferecer segurança emocional, algo que não encontrou em sua família biológica.
Curiosamente, a própria Srta. Honey carrega uma história marcada por perdas e abuso. Após a morte dos pais, ela passa a viver com a tia, Srta. Trunchbull, e aprende, desde cedo, a reprimir emoções e necessidades como forma de sobrevivência.
Esse encontro entre duas histórias atravessadas por dor e negligência evidencia algo potente: vínculos seguros podem, sim, ser construídos mesmo após experiências adversas, como uma infância disfuncional. Nesse sentido, vale destacar a importância de buscar ajuda especializada quando esse é o seu caso, ou o de alguém próximo. Na psicoterapia, muitas questões emocionais podem ser cuidadas e elaboradas, favorecendo uma vida psicológica mais saudável e relações mais consistentes.
Quantas “Matildas” existem fora da ficção?
“Matilda” é um filme que marcou a infância de muitas pessoas, incluindo a minha. Na época, talvez não tivéssemos dimensão da profundidade dos temas abordados. Era divertido assistir aos seus poderes, às cenas icônicas e aos momentos de coragem.
No entanto, após crescer e me deparar com tantas histórias e realidades, torna-se impossível ignorar o quanto esse filme dialoga com essas realidades. Existem muitas “Matildas” fora da ficção: crianças sem superpoderes, mas expostas à negligência justamente por quem deveria oferecer cuidado, proteção e educação.
O poder do acolhimento na vida de uma criança
Nesse sentido, surge uma reflexão importante: quem sabe você não pode ser uma “Srta. Honey” na vida de uma criança ou adolescente?
Não subestime o poder do acolhimento, pois ele pode mudar a rota de uma vida. Se tivéssemos a real dimensão de que o bem-estar emocional de um adulto nasce no coração da criança e na forma como ela aprende a se vincular, cuidaríamos da infância, e mesmo da adolescência, com muito mais zelo e sensibilidade. – Linda Trautmann
Até a próxima! 👋
Nota: As discussões sobre a Teoria do Apego apresentadas neste texto baseiam-se na obra de Bowlby e Ainsworth, conforme sistematizadas por Dalbem e Dell’Aglio (2005) citadas nas referências abaixo.
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Referências:
DALBEM, Juliana Xavier; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco. Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento. Arquivo Brasileiro de Psicologia, v. 57, n. 1, p. 28-45, 2005. Disponível em: link. Acesso em: 22 abr. 2026.
MATILDA. Direção: Danny DeVito. Baseado na obra de Roald Dahl. Estados Unidos: TriStar Pictures, 1996. Filme (98 min).
DICIONÁRIO DE NOMES PRÓPRIOS. Matilda: significado do nome. Disponível em: link. Acesso em: 22 abr. 2026.