O que Extraordinário nos mostra sobre o bullying
O filme Extraordinário (2017) conta a história de Auggie, um menino que nasce com uma condição facial rara e precisa enfrentar, pela primeira vez, o ambiente escolar. Embora a narrativa frequentemente seja lembrada como uma história sobre empatia, ela também oferece um retrato bastante fiel de como o bullying se constrói no cotidiano.
Ao longo do filme, não vemos apenas um “agressor” e uma “vítima”. Vemos colegas que riem, outros que se calam, alguns que se afastam para preservar a própria imagem e poucos que, de fato, se posicionam. O que se desenha ali não é apenas um ato individual, mas uma dinâmica social em que diferentes papéis sustentam a continuidade do comportamento agressivo.
O que é bullying: definições e características
O termo “bullying” foi inicialmente proposto pelo psicólogo e pesquisador Dan Olweus, que define um agressor como alguém que causa ou tenta causar medo, desconforto ou lesão em outra pessoa, seja de forma direta (empurrões, bater, chutar ou restringir outra pessoa) ou indireta (provocar, zombar, ameaçar, xingar ou espalhar boatos, por exemplo).
>De forma complementar, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu o bullying como o uso intencional de força ou poder físico e psicológico, seja por meio de ameaças ou ações concretas, contra si mesmo, contra outros ou contra uma comunidade, que tem como consequência, ou aumento da probabilidade, a lesão, morte, dano psicológico, desenvolvimento atípico ou privação.
Novas formas e variações do fenômeno
Além dessas definições mais amplas, um novo termo surgiu na temática do bullying, o qual os pesquisadores chamam de “punking”. Esse termo se refere a uma prática que envolve violência verbal e física, humilhação e constrangimento em público, realizada contra um ou mais estudantes do sexo masculino por outros estudantes do mesmo sexo. Ou seja, trata-se de um tipo de bullying que ocorre com mais frequência entre alunos do sexo masculino do ensino médio.
O papel dos observadores
Outro aspecto que tem sido cada vez mais estudado nessa temática é o papel dos “observadores” na prática do bullying. Esses são os indivíduos que não estão realizando o ato nem sofrendo diretamente, mas participam de alguma forma ao testemunharem a situação dentro do ambiente escolar. No entanto, os observadores podem desempenhar diferentes papéis. Alguns podem ajudar o agressor ao avisar que um adulto está se aproximando, enquanto outros se compadecem da vítima e desaprovam a atitude.
Fatores que influenciam o bullying: idade e gênero
Nesse contexto, estudos indicam que dois fatores que influenciam esse fenômeno estão relacionados à idade e ao gênero. Crianças mais velhas tendem a ser mais propensas a apoiar as vítimas do que as mais novas. Já as meninas demonstram, com maior frequência, empatia e apoio às vítimas do que os meninos, que muitas vezes tendem à opinião de que a vítima “mereceu sofrer isso”, embora isso não seja uma regra.
Bullying na adolescência
Outra trama que ilustra muito bem os impactos do bullying na adolescência é o recente anime lançado na Netflix, chamado “Parede de Gelo”. Nele, a protagonista Koyuki é retratada como uma garota muito esperta e inteligente, mas que tem dificuldades para gerar e manter vínculos sociais, além de sua personalidade mais introvertida. Ao longo dos episódios, cenas de seu passado na escola mostram que ela sofria bullying por seus colegas, e em especial, um colega. O anime consegue demonstrar muito bem a forma como ela criou “muros” emocionais para se proteger das pessoas, o que a levou consequentemente a criar barreiras mesmo com os amigos que queriam seu bem e se tornarem mais próximos.
Apesar de ser uma animação, o que acontece com Koyuki é real para diversos adolescentes que muitas vezes acreditam que o problema de passarem por essas situações são eles mesmos e, assim, se isolam e sofrem muitos prejuízos emocionais que afetam sua vida social e acadêmica.
No que tange à adolescência, estudos sugerem que pessoas nessa faixa etária sofrem bullying com mais frequência, especialmente no contexto escolar, com maior incidência entre alunos do ensino fundamental II.
Uma visão mais ampla: o modelo socioecológico
Diante disso, nos últimos anos, o fenômeno do bullying tem passado a ser estudado a partir de uma visão mais ampla, conhecida como modelo socioecológico, baseado na Teoria dos Sistemas Ecológicos proposta pelo psicólogo Urie Bronfenbrenner. Esse modelo propõe uma compreensão de como os contextos sociais aos quais crianças e adolescentes estão expostos influenciam amplamente características individuais, como a agressividade. Assim, não se trataria apenas de uma atitude individual e isolada de uma criança ou adolescente contra o outro, mas de um comportamento complexo moldado por uma série de fatores que compõem sua realidade, como o contexto familiar, a escola, as relações com os pares, a cultura, as mídias e as normas sociais.
Adolescência, pertencimento e comparação social
Considerando esse cenário, é importante lembrar que a adolescência é um período marcado por mudanças biológicas e sociais profundas. Não é de se admirar que grande parte dos estudos voltados a essa fase enfatize tanto as transformações sociais esperadas. À medida que as crianças entram na transição para a adolescência, passam a formar relações sociais mais complexas, o que as leva, consequentemente, a se compararem socialmente, tornando-se mais suscetíveis às opiniões dos pares e à urgência de se encaixarem em um grupo. Dessa forma, o nível de rejeição ou aprovação social de um adolescente em relação aos seus pares torna-se uma questão de prioridade, a ponto de servir como base para sua própria regulação socioemocional. Afinal, ninguém quer ocupar uma posição de rejeição social.
Status social e dinâmica de grupo
Nesse sentido, métodos sociométricos, baseados na sociometria desenvolvida por Jacob Levy Moreno, têm sido utilizados para determinar a integração dos alunos na sala de aula, avaliando as relações de aceitação e rejeição entre os colegas com base em critérios preestabelecidos. A partir disso, essa metodologia permite identificar, dentro de um grupo, perfis com diferentes status: populares, que possuem dominância social, poder e visibilidade entre seus pares; preferidos, que são aceitos e vistos com simpatia; rejeitados, que não são apreciados pela maioria dos colegas; controversos, que geram simpatia por alguns e antipatia por outros; ignorados, que apresentam baixas taxas de indicação, seja de aceitação ou rejeição; e médios, que não se destacam nas outras categorias, mas também não são ignorados.
Bullying como estratégia de posicionamento social
Assim, o status sociométrico pode ser entendido como um indicador da reputação do adolescente dentro de seu grupo social. Nesse contexto, o indivíduo passa a buscar ativamente estabelecer, manter e melhorar essa reputação. Muitos fazem isso escolhendo uma autoimagem específica, um modelo ou padrão, para tornar seu status mais aceitável diante dos colegas. Compreender esse processo é fundamental para entender também a regulação do comportamento do adolescente em seu meio social. Não raras vezes, adolescentes adotam comportamentos agressivos em sala de aula como forma de alcançar essa aprovação. Dessa maneira, o bullying pode emergir como uma dessas estratégias.
Desequilíbrio de poder e manutenção do comportamento
Além da agressão intencional e da repetição, uma das principais características do bullying é o desequilíbrio de poder. Dessa forma, adolescentes que aderem a comportamentos mais agressivos em busca de status mais favoráveis podem adotar estratégias repressoras para estabelecer e manter posições mais elevadas na hierarquia social, ocupando posições dominantes. O apoio de colegas para sustentar essa atitude também contribui para o aumento da ocorrência desses comportamentos, especialmente contra indivíduos mais vulneráveis.
Impactos a longo prazo
Como consequência, quando uma criança ou adolescente é vítima de comportamentos repetidos, agressivos ou prejudiciais por parte de um colega que ocupa uma posição de maior poder, a probabilidade de que isso afete a forma como essa pessoa vivencia o mundo social aumenta significativamente. Isso pode impactar suas tendências sociocognitivas de maneira geral, gerando consequências a longo prazo que se estendem até a vida adulta. Diversos estudos relatam que adultos que foram vítimas de bullying apresentam maior incidência de problemas de saúde mental, níveis mais baixos de desempenho acadêmico e relacionamentos sociais mais precários.
Confiança, vulnerabilidade e exposição social
Por fim, estudos revisados sugerem que a confiança, apesar de ser um aspecto fundamental nas interações sociais, pode, em alguns casos, levar a mais oportunidades de vitimização. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando uma vítima compartilha informações pessoais ou segredos que acabam sendo utilizados contra ela. No entanto, ressalta-se que esse fator não implica que a desconfiança ou o isolamento sejam estratégias adequadas para evitar o bullying. O que se mostra necessário é o desenvolvimento de uma inteligência emocional que permita discernir com quem compartilhar questões pessoais e em quais contextos isso é seguro e apropriado.
E na prática: o que fazer com tudo isso?
Considero que grande parte do público que lê meus artigos e consome o conteúdo que produzo é composta por adultos que desempenham diferentes papéis, como mães, pais, educadores, estudantes de psicologia e até os próprios adolescentes. Por isso, quero finalizar este artigo abordando como, de fato, começar a lidar com essa questão no cotidiano.
Antes de tudo, reforço aquilo que foi dito no início: o fenômeno do bullying já não cabe mais na ideia de apenas duas pessoas envolvidas, sendo o causador e o afetado. Trata-se de um fenômeno complexo, sustentado pelas dinâmicas grupais e pelas relações estabelecidas dentro de determinado contexto social.
Tendo isso em vista, percebe-se que, para um enfrentamento mais eficaz, é necessário compreender a dinâmica de grupos específicos, como uma sala de aula. Identificar os papéis ocupados por cada indivíduo dentro dessas relações e, a partir disso, propor soluções mais personalizadas é crucial. Nesse sentido, o ideal é que o trabalho seja voltado principalmente para a prevenção. Isso pode ocorrer por meio da psicoeducação e do ensino socioemocional e pela construção de redes de apoio que facilitem a comunicação dos alunos quando se sentirem ameaçados, humilhados ou oprimidos.
Apoio individual e ajuda psicológica
Além disso, vale destacar a importância do apoio individual. As famílias exercem um papel fundamental por representarem, muitas vezes, a primeira rede de apoio à qual o adolescente pode recorrer em busca de ajuda. Da mesma forma, o acompanhamento psicológico pode ser de grande valia tanto para quem sofre bullying quanto para quem o pratica. Em alguns casos, a própria pessoa que perpetua esse comportamento também pode estar em sofrimento e necessita buscar ajuda psicológica.
Por fim, se você é um adolescente e está sofrendo bullying, encorajo você a compartilhar isso com um adulto de sua confiança que possa ajudá-lo. Pedir ajuda já é um passo gigantesco. Por isso, não se cale.
Parafraseando as palavras de “Ian Maclaren”:
Cada pessoa que você encontra está travando uma batalha que você não conhece. Seja gentil. Sempre.
Até a próxima! 👋
______________________________
Referências:
CAMODECA, Marina; GOOSSENS, Frits A. As cognições sociais de vítimas de bullying: uma revisão sistemática. Adolescent Research Review, 2022.
CAÑAS, Estefanía; ESTÉVEZ, Estefanía; ESTÉVEZ, Juan F. Status sociométrico em perpetradores de bullying: uma revisão sistemática. Frontiers in Communication, 2022.
CHBOSKY, Stephen (direção). Extraordinário. Estados Unidos: Lionsgate, 2017.
MANKYU (direção). Parede de Gelo. Japão: Studio KAI; Netflix, 2026. Série de animação.
ROMERA, Eva M.; ORTEGA-RUIZ, Rosario; RUNIONS, Kevin; CAMACHO, Antonio. Perpetração do bullying, desengajamento moral e necessidade de popularidade: examinando associações recíprocas na adolescência. Journal of Research on Adolescence, 2021.
SWEARER, Susan M.; ESPALAGE, Dorothy L.; NAPOLITANO, Scott A. Uma revisão das pesquisas sobre bullying e vitimização por pares na escola: uma análise do sistema ecológico. Aggression and Violent Behavior, 2012.